A regra dos 7,38,55 e a sua incompreensão no universo da Comunicação

Por: Sergio Bialski

Há alguns meses, após apresentação do seminário de final de semestre, um de meus alunos da universidade questionou-me sobre o desempenho que teve em termos de comunicação não-verbal, pois havia lido que esta é responsável pelo sucesso dos grandes oradores e que, por tabela, a forma de expressar pensamentos teria muito mais relevância do que o conteúdo transmitido a qualquer audiência.

Devo confessar que fiquei desconcertado com a indagação, pois estou acostumado a escutar a habitual pergunta: “O que achou do trabalho? Gostou das informações e de nossa pesquisa?”. Ou seja: uma preocupação sempre focada no conteúdo e não na forma de transmissão.

Não hesitei em questioná-lo em relação ao que sabia sobre o tema e que obras o haviam convencido acerca de tamanho peso da comunicação não-verbal. E a resposta foi algo parecido com o seguinte: “Li na Internet que as palavras que usamos têm um peso de 7% na comunicação, o tom de voz (velocidade, volume) tem um peso de 38% e a linguagem corporal (expressões faciais e como nos movemos e gesticulamos) tem um peso de 55%.

O aluno estava se referindo ao famoso e mal interpretado estudo do dr. Albert Mehrabian, engenheiro, psicólogo e professor na Universidade da Califórnia (UCLA), que compilou os resultados de seus achados sobre comunicação e linguagem corporal no livro “Mensagens Silenciosas: comunicação implícita de emoções e atitudes”.

Em tempos de Internet e generalizações inapropriadas, é sempre importante reforçar o equívoco da interpretação distorcida dos achados de Mehrabian, a começar pelo fato de que suas equações relativas à importância das mensagens verbais e não-verbais foram derivadas de experimentos que tratam da comunicação de sentimentos e atitudes. Portanto, a menos que se esteja falando sobre isso, essas equações não são aplicáveis. Nada mais justo, afinal, Mehrabian é um pesquisador com longa carreira de ensino e pesquisa, que tinha consciência de que suas ideias teriam validade somente se devidamente testadas e medidas, daí sua dedicação ao desenvolvimento de escalas e modelos teóricos para descrever e medir fenômenos psicológicos complexos.

Não se pretende aqui discutir ou abordar detalhes sobre o estudo, mas alertar para os riscos de acreditarmos em dados duvidosos, disseminados em rede, sem análise e reflexão criteriosas. Se a comunicação humana se resumisse a uma regra tão simples, baseada nos números mágicos 7, 38 e 55, por que deveríamos, por exemplo, preocupar-nos em estudar idiomas? Afinal, se palavras representam apenas 7% do poder comunicacional e a linguagem corporal corresponde a 55%, por que não empregar a mímica na comunicação humana? Não seria ela mais efetiva?

Como se percebe, são hilárias, pouco científicas e fogem ao bom senso quaisquer conclusões que se apeguem à busca do conhecimento sem entender o que é, de fato, o poder da verdadeira comunicação.

A comunicação que nos une é baseada, acima de tudo, na sinceridade do alinhamento entre palavra, tom de voz e linguagem corporal. É isso que confere legitimidade e autoridade. Você pode fazer uma palestra, discursar ou querer convencer seus interlocutores com palavras finamente escolhidas em seu repertório, mas elas só terão eco quando olhar fundo nos olhos dos que o escutam, falar firme e gesticular de forma harmônica, passando segurança e criando uma relação de empatia com o outro.

Costumo dizer que toda boa palavra começa com um gesto de sorriso e acolhimento, de modo que a linguagem corporal confirme a mensagem que estamos transmitindo. Parafraseando o personagem Sherlock Holmes, criado pelo escritor Sir Arthur Conan Doyle: “nas unhas do homem, nas mangas do seu paletó, nos seus sapatos, nos joelhos da calça, nos calos do seu polegar e do seu indicador, na sua expressão, nos punhos da sua camisa, nos seus movimentos – em cada um desses traços a ocupação de um homem se revela. É quase inconcebível que todos esses traços reunidos não sejam suficientes para esclarecer, em qualquer circunstância, o investigador competente”.

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