O perigo do discurso autoritário

Por: Sergio Bialski

No dia 17 de janeiro, Roberto Alvim, secretário especial de Cultura do governo federal, foi exonerado após a divulgação de um vídeo em que parafraseava trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda do regime nazista. Não bastasse isso, Alvim ainda utilizou a trilha sonora Lohengrin, do compositor alemão Richard Wagner (a ópera, inclusive, é citada no livro Mein Kampf, de Adolf Hitler), e se valeu de uma composição cenográfica cuja estética também seguiu a mesma linha.

Após ampla repercussão negativa, Alvim publicou um texto em seu perfil no Facebook alegando que a cópia da fala do ministro da propaganda nazista foi uma “coincidência retórica”, ressaltando que “a frase em si é perfeita” e que “permanecia em defesa dos valores propostos no texto, de uma arte nacional heroica”.

Dez dias após esse episódio, em 27/1, relembrou-se, em nível mundial, os 75 anos da liberação de Auschwitz por tropas soviéticas. Estima-se que mais de 1,1 milhão de pessoas foram exterminadas neste campo de concentração pelo regime nazista, das quais 1 milhão eram judeus.

Mas qual a relação entre a demissão de um secretário de Cultura no Brasil e a preservação da memória do Holocausto?

Em tempos em que o discurso autoritário e manipulador retorna a palanques políticos, camuflando palavras antissemitas de ódio por meio de um manto antissionista, há que se tomar cuidado redobrado para nunca
esquecer Auschwitz. O perigo está no fato de que o discurso autoritário é um discurso perigosamente competente, que se vale da retórica para anestesiar o senso crítico individual, levando a um grau sem precedentes de alienação. Basta refletir sobre as palavras de Alvim, que, mesmo após ser publicamente linchado, ainda declarou que “a frase era perfeita”, teimando em negar, em sã consciência, a gravidade da situação.

Como se percebe, o discurso autoritário é competente em sua manipulação e se manifesta através do sensacionalismo (para vendê-lo, é preciso despertar as emoções do público) e da atomização (o real é percebido não em sua totalidade, mas em seus fragmentos), destinando-se a apreender uma parte do real, tal como o fez o ex-secretário.

Há que se lembrar, aqui, as palavras da filósofa Marilena Chauí, que usa o termo ‘discurso competente’ como sendo “aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado. Em um mundo como o nosso, que cultua patologicamente a cientificidade, não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem permitida ou autorizada, a saber, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência”. Por este motivo – continua Chauí – “aceita-se a ideologia da competência, a partir da ideia de que há, na sociedade, os que sabem e os que não sabem, que os primeiros são competentes e têm o direito de mandar e de exercer poderes, enquanto os demais são incompetentes, devendo obedecer e ser mandados”.

Vai-se Alvim, para nunca mais voltar. Mas seu ostracismo não encobre a perversidade da comunicação totalitária, infelizmente reproduzida à exaustão por diferentes governantes, em países como Irã, Turquia, Venezuela e outros tantos rincões do planeta. Cumpre-nos, pois, manter um olhar vigilante, pois como nos lembra o francês Michel Pêcheux, “nenhum dizer começa no sujeito que o enuncia. Algo fala antes e, assim, continuará produzindo sentidos”. É aí que mora o perigo de muitas ideologias e nos obriga a refletir sobre as tragédias, não muito distantes, escritas com sangue e sofrimento em nossa História.

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